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title: "A Forma Através do Tempo"
description: "Arquitetura, usabilidade e objetos digitais — três tradições que se perguntam a mesma coisa."
author: "Anderson Henrique Da Silva"
date: "2026-01-22T00:00:00Z"
updated: "2026-04-02T13:42:55.031504Z"
category: "philosophy"
tags: ["architecture","design","usability","philosophy","ai-systems"]
canonical: "https://www.ntlabs.dev/blog/form-through-time"
locale: "pt"
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<figure class="blog-figure">
<img src="/blog/form-through-time-brasilia.jpg" alt="Escultura Os Candangos de Bruno Giorgi" />
<figcaption>Escultura &ldquo;Os Candangos&rdquo;, de Bruno Giorgi, na Praça dos Três Poderes, Brasília</figcaption>
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Em 1957, Lúcio Costa quase não participou do concurso para a nova capital. Os outros competidores montaram equipes grandes, produziram maquetes detalhadas, encadernaram volumes. Costa submeteu croquis à mão livre. Sem maquete. Sem memorial descritivo além do essencial.

O júri estranhou. Alguns acharam descaso. Outros, arrogância. Mas havia ali uma cidade inteira — os dois eixos cruzados, as superquadras residenciais, os setores funcionais, a esplanada dos ministérios. Não faltava nada. Faltava apenas a decoração que os outros julgavam necessária.

Costa confiava na síntese. A forma falaria por si.

Oscar Niemeyer ficou responsável pelos edifícios. Conheciam a linguagem um do outro desde o projeto do Ministério da Educação no Rio. Niemeyer traria as curvas — o Congresso com suas cúpulas invertidas, a Catedral com as colunas que parecem mãos ou espinhos, o Palácio da Alvorada com as colunas que parecem velas ou asas, dependendo da luz.

Em abril de 1960, Juscelino inaugurou a capital. "Pronta" é generoso — o que existia era canteiro de obras, lama, barracas. Escolas, esgoto, comércio levariam anos. Os candangos que construíram a cidade foram se instalando onde cabiam: Taguatinga, depois Ceilândia, depois Samambaia. O Plano Piloto ficou com a forma pura. As cidades-satélite absorveram o que a pureza não comportava.

O modernismo brasileiro ganhou vitrine internacional. Havia ali algo que não se via em outros lugares — uma confiança na forma como instrumento, não como ornamento. A arquitetura não decorava a vida; propunha modos de vivê-la.

Os pilotis liberavam o térreo, faziam o olhar atravessar os edifícios, dissolviam a fronteira entre público e privado. Quem caminha sob um piloti está ao mesmo tempo dentro e fora. A forma cria uma condição.

Lina Bo Bardi, já em 1961, notava o que faltava: creches, comércio de rua, os espaços intermediários onde a vida informal acontece. O desenho pressupunha certos modos de morar. Funcionava bem para quem cabia no pressuposto.

A forma organiza. Mas organiza a partir de pressupostos — sobre quem vai habitar, como vai viver.

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Trinta e quatro anos depois, em outro continente, Jakob Nielsen publicou um artigo que também apostava em formas — só que de outro tipo.

Nielsen nasceu na Dinamarca, estudou ciência da computação, fez doutorado sobre interfaces. Nos anos 80 e 90, trabalhou na IBM e Sun Microsystems, época em que computadores pessoais deixavam de ser curiosidade e viravam ferramenta de trabalho. O problema era que cada software inventava a própria linguagem. Menus apareciam em lugares diferentes. Ícones significavam coisas diferentes. Comandos óbvios em um programa eram ocultos em outro.

Usuários erravam o tempo todo. Não por incapacidade — por design hostil.

Nielsen e Rolf Molich propuseram um método: a avaliação heurística. Em vez de testes elaborados com usuários reais, um pequeno grupo de avaliadores examinaria a interface segundo princípios. Dez princípios. Visibilidade do estado do sistema. Correspondência com o mundo real. Controle e liberdade. Consistência. Prevenção de erros. E assim por diante.

Não eram leis científicas. Eram padrões observados em interfaces que funcionavam. Nielsen não inventou os princípios; codificou o que bons designers já faziam intuitivamente.

O método se espalhou. "Heurística de Nielsen" virou expressão corrente. Críticos apontam que as heurísticas são genéricas demais — dizer "seja consistente" não resolve os problemas concretos de um projeto concreto. Os defensores respondem que esse é justamente o ponto. Heurísticas são ponto de partida, não chegada. Gramática básica, não estilo.

O "usuário" das heurísticas é uma abstração útil — alguém que otimiza tempo, evita erro, busca eficiência. Como toda abstração, ilumina algumas situações e obscurece outras. O idoso na biblioteca pública, o adolescente no celular pré-pago, o funcionário no sistema legado — cada um habita a interface de um jeito que a abstração não captura inteiramente.

A gramática é ponto de partida. O que se faz com ela depende de quem escreve.

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Há algo em comum entre Costa desenhando eixos em um papel e Nielsen listando princípios em um artigo. Os dois acreditavam em gramática. Em regras subjacentes que, se respeitadas, produziriam espaços — físicos ou digitais — mais habitáveis.

Costa olhava para cidades e via caos: crescimento desordenado, trânsito cruzado, funções misturadas sem lógica. Propôs separação clara. Eixos organizariam o fluxo. Escalas definiriam a experiência — a escala monumental para o Estado, a escala residencial para o cotidiano, a escala gregária para o comércio.

Nielsen olhava para interfaces e via o mesmo caos. Propôs princípios que atravessariam contextos. Se todo sistema mostrasse seu estado, se todo sistema permitisse desfazer, se todo sistema falasse a língua do usuário — a experiência seria mais navegável.

Os dois operavam em registros diferentes. Costa tinha um Estado como cliente — podia mover montanhas, literalmente. Nielsen aconselhava empresas que podiam ignorá-lo se quisessem. O arquiteto trabalhava com concreto e decreto. O consultor, com recomendação e mercado. A escala de consequência não é a mesma.

Mas a aposta era parecida: formas bem escolhidas tornam espaços mais habitáveis. Os dois foram criticados por excesso de confiança na universalidade. Brasília ignora como pessoas realmente vivem, diziam. As heurísticas ignoram como pessoas realmente usam, diziam.

As críticas procedem. Mas talvez mirem ligeiramente ao lado. Costa e Nielsen não prometiam resolver a vida. Prometiam organizar o espaço em que a vida acontece. A diferença é sutil, mas é diferença.

Uma cidade planejada não obriga ninguém a ser feliz. Apenas remove certos obstáculos e cria outros. Uma interface bem projetada não obriga ninguém a ser produtivo. Apenas facilita alguns caminhos e dificulta outros.

O que as pessoas fazem com o espaço — isso, nenhuma forma controla inteiramente.

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Yuk Hui chegou depois, com perguntas de outra ordem.

Nasceu em Hong Kong, estudou ciência da computação e filosofia, fez doutorado na Alemanha com Bernard Stiegler. Em 2016, publicou *On the Existence of Digital Objects*. O título é literal. O livro pergunta: objetos digitais existem? E em que sentido?

Parece pergunta estranha. Claro que existem. Arquivos, programas, dados — estão aí, funcionam, ocupam memória. Mas Hui não está interessado na existência trivial. Está interessado no modo de existência.

Um edifício existe em um lugar. Ocupa espaço, tem peso, resiste ao tempo — ou cede a ele. O concreto de Brasília racha, mancha, envelhece. Restauradores trabalham para manter a Catedral como era. Mas ela nunca será exatamente como era. O tempo passa por ela.

Um arquivo digital não existe assim. Pode ser copiado infinitamente sem degradar. Um programa de 1995, rodando em um emulador, é bit por bit idêntico ao original. O tempo não passa por ele da mesma forma. Ele simplesmente deixa de ser executado — até que alguém o execute de novo.

Hui propõe que objetos digitais são relações, não coisas. Não existem de forma estável e independente — são processos que só ganham existência quando executados. Um embedding não é uma coisa; é uma relação entre uma palavra, um espaço de alta dimensão e o modelo específico que o percebe. Muda o modelo, muda o embedding — mesmo que a palavra seja a mesma. Um arquivo de texto não é nada até que um programa o leia. Uma interface não é nada até que um usuário interaja. O objeto digital existe *entre* — entre máquina e máquina, entre máquina e humano, entre camadas de código que se invocam mutuamente.

Se pensamos em programas como coisas, projetamos coisas. Se pensamos como relações, projetamos relações.

A diferença aparece em decisões concretas. Um aplicativo projetado como coisa tende a ser fechado, completo em si, com funções pré-definidas. Um aplicativo projetado como relação tende a ser aberto, extensível, dependente do contexto de uso.

Mas relações têm infraestrutura. O repositório Git é relação entre desenvolvedores — e também servidor que alguém mantém. O feed algorítmico é relação entre usuário e conteúdo — e também data center consumindo energia. Pensar em termos de relação não dissolve a materialidade. Apenas a redistribui.

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Não há registro de que esses quatro — Costa, Niemeyer, Nielsen, Hui — tenham se encontrado, se lido, se citado. Niemeyer provavelmente não sabia quem era Nielsen. Nielsen provavelmente não lê filosofia continental. Hui talvez conheça Brasília por fotos.

Mas há um fio.

Os quatro se perguntaram o que significa dar forma a algo que humanos vão habitar. Costa e Niemeyer trabalharam com concreto, aço, vidro — materiais que envelhecem, que pesam, que ocupam lugar no mundo. Nielsen trabalhou com interfaces, pixels, interações — formas que existem em telas, que mudam com um clique. Hui pensa objetos que talvez nem sejam objetos — processos, relações, existências condicionais.

O meio muda. A pergunta persiste.

O que é projetar para humanos? Como antecipar usos que ainda não existem? Como criar estruturas que organizam sem aprisionar, que orientam sem determinar?

Costa respondia com eixos e setores. Nielsen, com heurísticas. Hui, com ontologia.

Nenhum resolve. Todos iluminam cantos diferentes do problema.

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Mas há um silêncio no que foi dito até aqui.

Costa projetava para o homem moderno — o funcionário público, a família, o motorista. Nielsen projetava para o usuário de computador pessoal — alguém com memória limitada, que erra, que esquece, que precisa de feedback. Hui analisa objetos digitais, mas ainda pressupõe um polo humano na relação. O habitante, em todas essas tradições, tem corpo. Tem percepção temporal. Envelhece junto com o concreto ou se frustra diante da tela.

Para quem projetamos quando o habitante é outro sistema?

Quando desenho uma arquitetura de agentes, projeto simultaneamente para três tipos de habitante.

O primeiro é o usuário final humano — que precisa das heurísticas de Nielsen, da visibilidade de estado, do erro que se pode desfazer.

O segundo são os agentes que orquestram entre si — que precisam de suas próprias heurísticas: contratos claros, schemas tipados, protocolos de fallback. Consistência, para um agente, significa definições estáveis de esquema. Visibilidade de estado significa logs estruturados que outro sistema consiga interpretar.

O terceiro não é uma pessoa nem um sistema. É a colaboração entre mim e o modelo de linguagem — o par que projeta junto, que precisa de uma arquitetura legível para quem pensa em linguagem natural mas executa em código.

Esse terceiro habitante é o mais estranho. Não é o usuário de Nielsen nem o objeto de Hui. É uma entidade híbrida: mantém a intenção, mas distribui a implementação. Tem intuição, mas delega a verificação. Conversa para programar.

Para esse habitante, o que significa "visibilidade do estado do sistema"? Talvez explicabilidade da cadeia de raciocínio. O que significa "controle e liberdade"? Talvez saber quando confiar, quando revisar, quando retomar o controle.

Os pensadores anteriores assumiam que sabiam para quem projetavam. Essa certeza ficou menos nítida. O habitante agora pode ser múltiplo — humano, sistema, ou algo entre os dois.

Lina Bo Bardi perguntava onde estavam as creches e o comércio de rua em Brasília — os espaços informais que o plano não previu. Nos sistemas que construo, esses espaços também existem: são os prompt hacks que os usuários inventam, os logs bagunçados que ninguém lê, as gambiarras que fazem o sistema funcionar apesar do design. A Ceilândia de uma arquitetura de agentes são os usos que o arquiteto não planejou — e que, às vezes, são os mais valiosos.

A pergunta deixou de ser apenas "como projetar para humanos" e passou a incluir "como projetar para coabitação."

O humano envelhece. O código não degrada, mas obsolece. O modelo é retreinado e se torna outro — mesma interface, outro habitante.

Quem desenvolve sistemas hoje não apenas constrói essa arquitetura. Já mora nela.

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Penso nisso quando desenho sistemas, quando decido como um agente vai responder, quando escolho o que fica visível e o que fica escondido. Não é que Costa ou Nielsen ou Hui tenham respostas prontas. É que a pergunta deles continua sendo uma pergunta que vale fazer.

A forma organiza. Mas nunca organiza sozinha — há sempre contexto, uso, desvio, apropriação. O piloti que libera o olhar também canaliza o vento. A heurística que previne erro também pode esconder opções. O objeto digital que existe "entre" existe entre infraestruturas que alguém mantém.

Projetar é escolher o que facilitar e o que dificultar. O resto — o que as pessoas e sistemas fazem com o espaço — escapa, como sempre escapou.

Talvez seja esse o ofício: dar forma sabendo que a forma não é tudo. Organizar sabendo que o organizado vai ser reorganizado. Construir para habitantes que ainda não conhecemos, inclusive os que não são inteiramente humanos.

A pergunta de Costa, Nielsen e Hui continua em aberto. Isso não é falha. É condição.

Mas talvez seja mais do que isso. Estamos construindo, agora, algo como a Brasília da mente — arquiteturas de pensamento que vão condicionar como humanos e sistemas coabitam por décadas. Os erros de Costa levaram sessenta anos para ficar óbvios. Os nossos podem levar menos.
